sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Porque somos Oliveira? A história de Ozemar Rodrigues de Souza

Em 2013, antes de morrer, meu pai OZEMAR me mostrou pela primeira vez a fotografia mortuária de meu avô Valdemar Rodrigues de Souza, e me contou a história que havia sido passada a ele por parentes, sobre o assassinato de seu pai na Açucareira, em Governador Valadares, às margens do Rio Doce, em Minas Gerais, ao lado de uma linha de trem.




Neste mesmo dia, quando já havia me presenteado com uma Bíblia Sagrada, me veio a sensação que logo perderia alguém muito próximo, mas não imaginava que era ele quem aos poucos se despedia de nós. 


ZEMAR
JOSÉ
MARIA

E então já se passaram quase dois anos que pouco encontrei sobre as raízes norte mineiras de nossa família, e nada de concreto sobre de onde veio o meu pai, devido à dificuldade de se encontrar estudos sobre a região, principalmente sobre gente simples, agricultores e negros. No entanto, a sua vida foi uma história de superação de todos os estigmas da nossa sociedade: do negro, do pobre, do órfão, dos pais analfabetos, do doente, do cidadão sem oportunidades, mas que constituiu uma família e deixou um grande legado. 

Sua história tem início com Maria Pereira dos Santos, filha de José Francisco de Barros e Raimunda Pereira Santos, nascida na Fazenda Bananal município de Salinas, Minas Gerais, em 05/05/1924. Segunda filha do casal, logo ficou órfã de mãe. Seu pai contraiu novas núpcias com a Clemência Querina dos Santos, filha de Clemente dos Reis e Maria Querina dos Santos que juntos tiveram 06 filhos.
CLEMENCIA

Enquanto a família deixou Salinas para residir em Ouro Verde de Minas na década de 50, Maria se casou na igreja católica em São José do Divino em 25/10/1952, na região de Teófilo Otoni com Valdemar Rodrigues de Souza, nascido em 02/08/1927 em Jequitinhonha. José nasceu em 16/09/1953 em São José do Divino, e Ozemar nasceu aproximadamente em 1960, três meses após o falecimento de seu pai. Eles foram batizados na Igreja Católica em data e local desconhecidos. 


Então, Juscelino Alves de Almeida, meio-irmão de Maria, a buscou em Minas Gerais e a trouxe para Indianópolis, Paraná, para cuidar da viúva e de seus dois filhos. Sua esposa Juscelina Maria dos Santos se recorda da aparência do menino: "estava tão desnutrido que a pele grudava nos ossos". 

JUSCELINO

Em 1964, Maria requereu o seu registro civil, onde consta como data de nascimento 15/05/1924, tendo como referência o dia e o mês da decisão da Juíza que concedeu o pedido, enquanto que o ano adveio "da aparência de uma senhora de 40 anos".


Ela se casou no civil em Indianópolis aos 03/06/1964 com Alipio Gonçalves de Oliveira, coveiro, baiano de São Félix, nascido em 15/08/1915, filho de Veríssimo Teodoro Alves e Thereza Gonçalves de Oliveira, e adotou o nome de Maria dos Santos Oliveira. 

O casal teve uma filha NATIMORTA, que faleceu logo após nascer por falta de cuidados médicos em 01/06/1966, e foi enterrada em Indianópolis.

Quanto aos enteados, no ano de 1966 Alipio adotou à brasileira seus enteados tendo registrado como seu filho Ozemar como nascido em 07/09/1959, e posteriormente José Rodrigues de Souza, como nascido em 16/09/1953, irmãos nascidos com 01 mês de diferença. Ao realizar estes novos assentos por meio criminoso apagaram por completo qualquer vestígio da minha ancestralidade.

ALIPIO era filho natural de Theresa Gonçalves de Oliveira, que originou o sobrenome familiar

A sua infância não foi tranquila como a de qualquer criança. Seu seu irmão mais velho, José, se mudou para a cidade de Cianorte para estudar, enquanto que Ozemar sofria com a violência doméstica de seu padrasto. Ele me confidenciou algumas vezes que chegou a correr 16 quilômetros sem parar em direção a São Lourenço para fugir das agressões físicas de seu pai registral. Atribuía-se ao comportamento violento de Alipio ao consumo de bebidas alcólicas e ao culto da macumba, religião de sua terra, a Bahia.

As agressões se tornaram frequentes, mas mesmo doente e sem condições de deixar a cama, não deixava de frequentar as aulas na escola. Um dia, uma professora de Ozemar notou os ferimentos aparentes dele, e confrontou Alipio, obrigando-o a levar o menino ao hospital. Naquele dia, ele teve o pescoço destroncado pelo padrasto, e teve que passar por uma cirurgia. Durante a recuperação, ele contraiu uma tuberculose grave. Naquela época, o diagnóstico da doença era como uma sentença de morte.

Diante disso, Ozemar foi enviado em agosto de 1971 ao Sanatório São Sebastião, na cidade da Lapa, Paraná, único local para tratamento da doença infecto-contagiosa. Assim, sem saber se morreria ou viveria, ele ficou sob os cuidados das Irmãs de São Vicente de Paulo, que eram as responsáveis pela administração. Há algum tempo, ele me contou que o sanatório ficava à beira de uma estrada e que as vezes saia ao jardim para brincar. Milagrosamente, ele se recuperou da doença e teve alta em junho de 1972.

Sanatório São Sebastião da Lapa
Ao retornar para Indianópolis, ele foi acolhido na casa de seus tios Juscelino Alves de Almeida e Juscelina, que agora era um comerciante próspero na cidade e pai de 04 filhos: Jonas Alves de Almeida, Lidia, Lucia e Josué Alves de Almeida. Assim, criado como agregado, ele encontrou um lar, e então recebeu educação, roupas, carinho e atenção de pai e mãe, tudo o que nunca teve antes.

Casa de Juscelino e Juscelina em Cianorte
Ozemar, Maria, Mãe Velha e Clemência


Com esta base, Ozemar conseguiu ser aprovado na Faculdade de Letras de Umuarama, mas não foi possível concluir o curso por falta de recursos. Por isso, viajou para São Paulo em busca de emprego, mas logo teve que voltar ao Paraná, uma vez que Alipio Gonçalves de Oliveira havia falecido em 10/06/1979, vítima de um AVC. De volta a Cianorte, antes que o mercado das roupas manufaturadas chinesas dominassem o mercado, ele aprendeu com a ajuda de seu irmão o ofício de alfaiate, com inaguração da "Alfaitaria Brasil" em Cianorte, Paraná.

Em 26/11/1983, ele casou em Terra Boa, Paraná, com Valdeci Rueda, filha de Benvinda Irene Pol Rueda e Francisco Rueda Neto e dessa união tiveram dois filhos: Eu, Michael (1985),  formado em Direito e advogado, e Rafael Fernando de Oliveira (1990), formado em Farmácia e farmacêutico.


Sua mãe, Maria Pereira dos Santos, filha de Raimunda Pereira dos Santos e neta de Prudencia Pereira dos Santos, faleceu em Cianorte no dia 27/02/2007, aproximadamente com 82 anos, vítima de AVC e hipertensão arterial, sendo sepultada em Indianópolis.

Após ser alfaiate, Ozemar trabalhou de mascate e costureiro industrial, sendo que em 2009, ele foi aprovado em concurso da Prefeitura Municipal de Terra Boa, e tomou posse como funcionário público em 2011.

Ozemar faleceu prematuramente aos 54 anos em 22/02/2014 na cidade de Campo Mourão, Paraná, deixando muita alegria e saudade por onde passou. Ele está sepultado na cidade de Terra Boa.

Por fim, minha busca pela genealogia irá continuar até encontrar algum documento que comprove o seu nascimento e a sua filiação, bem como a de meu avô paterno para que assim possamos corrigir de vez todos os erros cometidos no passado e lembrar quem nós éramos e de onde viemos.

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