No dia 08 de janeiro, às 20 horas, exatamente quando eu completava 30 anos de idade, eu ganhei o meu maior presente até então: após muitas andanças pela cidade, encontrei a casa de Geraldo Domingos do Amaral, o trabalhador que havia conhecido mais cedo no Bar do Expedito e irmão do Julio carroceiro. Assim, ele me contou toda a história de Messias contra Valdemar, que eu estava ali para pesquisar:
Certo dia em 1958, quando Geraldo tinha aproximadamente 10 anos, houve uma grande festa na Fazenda Charqueada onde a família dele era agregada, como muitos outros trabalhadores que lá moravam. Dentre eles, havia um senhor chamado Valdemar, que era o meu avô. No sítio, existiam 20 casas de material e funcionava um frigorífico, onde o gado era abatido e salgado para venda, sendo posteriormente transportado via ferrovia Bahia-Minas, cujos trilhos cortavam no meio a propriedade, que contava com sua própria estação para escoar a produção de charque.
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| Entrada da Fazenda Charqueada |
O VALDEMAR era reparador de trilhos e minerador de pedras preciosas, mas não era da região. Ele havia chegado com o arrendador Cardoso, uma irmã e a avó Altalina de Itaperuna, Rio de Janeiro. Alguns antigos dizem que se casou com minha avó Maria Pereira dos Santos no distrito de Mucuri, Teófilo Otoni, Minas Gerais.
Um baile aconteceria no grande salão do seu Galdino, e muita gente da cidade veio presenciar, inclusive os carroceiros que faziam o trajeto para comercializarem o charque.
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| Antiga estação da Fazenda Charqueada |
Aconteceu que no baile estava presente um sujeito chamado Messias dos Santos, filho do Coronel Sebastiãozão da cidade vizinha Nanuque. Negro, alto e gordo, era açougueiro na Charqueada. Relatos dizem que ele desossava um boi em 08 minutos com uma peixeira. E naquele dia, a faca estava bastante afiada.
Então, durante o baile, Messias tentou tirar a irmã do Juracy para uma dança e Juracy, por sua vez, comeceu o erro de recusar. Os padres que me ajudaram na busca por registros na paróquia local confirmaram que na época, recusar uma dança era motivo de morte. E foi assim que aconteceu.
Um amigo de Messias participou da briga: Clemente tirou uma ripa de madeira do salão e foi em direção a Valdemar. Com a confusão, os presentes do baile correram em todas as direções, e mulheres perderam os brincos, assustados. Clemente tentou acertar a cabeça de Juracy com a ripa, mas errou.
Enquanto isso, Messias contornou o salão de festas, desembainhou a faca e, pelas costas, acertou a clavícula esquerda de Juracy. Assustado, e com a peixeira em seu ombro, Juracy correu por 03 metros, atravessou os trilhos do trem e tombou morto nas margens do Rio Mucuri.
Geraldo, que presenciou todo o ocorrido ainda criança, enfrentou a mira do revólver que Messias trazia na cintura, mas conseguiu fugir.
Assustado, Clemente atravessou o Rio Mucuri e alcançou a outra margem e não foi mais visto na fazenda. Ainda, Messias montou em um cavalo e fugiu para os lados de Nanuque, e deve ter alcançado a região do Contestado no Espírito Santo. Ele nunca foi preso pelo crime que cometeu, mas frequentemente foi visto na cidade de Carlos Chagas.
No dia seguinte, veio uma tropa armada e uniformizada de Teófilo Otoni para investigar o ocorrido, porém sem êxito. Juracy foi enterrado em um cemitério dentro da fazenda.
Esta história foi contada por Geraldo a mim, rodeado pelos netos e por sua irmã mais nova.
No dia 09, eu me dirigi ao Cartório da cidade em busca de uma certidão de óbito, mas também não havia qualquer registro.
Vultos sem história, até agora.
Esse era o local que meu papai Ozemar mais queria estar nesse mundo. Infelizmente, não foi possível ele ver e ter a emoção de estar ali. Foi indescritível.
Agradeço a ajuda de Gilson, o capataz que me conduziu pela fazenda e filho do Severino, o o ex-chefe geral da Charqueada, e a Gilkássia Ferreira, funcionária pública do município, por toda a diligência e presteza ao lidar com esse sem número de informações.
Então, durante o baile, Messias tentou tirar a irmã do Juracy para uma dança e Juracy, por sua vez, comeceu o erro de recusar. Os padres que me ajudaram na busca por registros na paróquia local confirmaram que na época, recusar uma dança era motivo de morte. E foi assim que aconteceu.
Um amigo de Messias participou da briga: Clemente tirou uma ripa de madeira do salão e foi em direção a Valdemar. Com a confusão, os presentes do baile correram em todas as direções, e mulheres perderam os brincos, assustados. Clemente tentou acertar a cabeça de Juracy com a ripa, mas errou.
Enquanto isso, Messias contornou o salão de festas, desembainhou a faca e, pelas costas, acertou a clavícula esquerda de Juracy. Assustado, e com a peixeira em seu ombro, Juracy correu por 03 metros, atravessou os trilhos do trem e tombou morto nas margens do Rio Mucuri.
Geraldo, que presenciou todo o ocorrido ainda criança, enfrentou a mira do revólver que Messias trazia na cintura, mas conseguiu fugir.
Assustado, Clemente atravessou o Rio Mucuri e alcançou a outra margem e não foi mais visto na fazenda. Ainda, Messias montou em um cavalo e fugiu para os lados de Nanuque, e deve ter alcançado a região do Contestado no Espírito Santo. Ele nunca foi preso pelo crime que cometeu, mas frequentemente foi visto na cidade de Carlos Chagas.
No dia seguinte, veio uma tropa armada e uniformizada de Teófilo Otoni para investigar o ocorrido, porém sem êxito. Juracy foi enterrado em um cemitério dentro da fazenda.
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| Sepultura de Valdemar, no cemitério rural |
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| Local da morte de Valdemar. Gilson era o meu guia. Ao fundo, o Rio Mucuri |
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| Vista do cemitério rural da Fazenda Charqueada |
Esta história foi contada por Geraldo a mim, rodeado pelos netos e por sua irmã mais nova.
No dia 09, eu me dirigi ao Cartório da cidade em busca de uma certidão de óbito, mas também não havia qualquer registro.
Vultos sem história, até agora.
Esse era o local que meu papai Ozemar mais queria estar nesse mundo. Infelizmente, não foi possível ele ver e ter a emoção de estar ali. Foi indescritível.
Agradeço a ajuda de Gilson, o capataz que me conduziu pela fazenda e filho do Severino, o o ex-chefe geral da Charqueada, e a Gilkássia Ferreira, funcionária pública do município, por toda a diligência e presteza ao lidar com esse sem número de informações.






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